quinta-feira, 2 de julho de 2015

Ensaio I

São como caixas e, assim que abertas, uma exclui a outra, pelo menos na maior parte das vezes. Em algumas ocasiões coabitam, chegam a ornar o ambiente, mas isso não significa paz ou nenhuma outra utopia sussurrada nas entrelinhas. Significa na verdade que estava me expondo um pouco, usando quase um sortilégio dado o encantamento do outro quando enxerga mais um lado antes velado, vislumbrando um pouco da personalidade prismática e disforme mas não despojada por completo de fascínio.
Logo aquilo se irá e as caixas ficarão empilhadas em algum canto. São de madeira marchetada, trabalhadas com esmero, de uma época em que o tempo não contava os segundos e minutos assim, trôpegos virando horas. Algumas possuem detalhes em madrepérola e foram compradas em brechós, suas tampas deslizam com facilidade de menina descendo o escorrega. São bastante suaves mas ao mesmo tempo gritam para que guarde ali o melhor de mim. Coleciono nelas nomes de livros e filmes que pretendo ler e assistir, assim como frases importantes de autores conhecidos ou mesmo nunca lidos. Elas não sabem, mas essas caixas, as que guardam papéis meio rasgados e meio inteiros, tirinhas manuscritas, são as minhas prediletas. Não se sabe exatamente o motivo, longe de ser puramente uma questão estética, mais talvez por guardarem tesouros e os desconhecerem – promessas de futuros encontros, grandes descobertas. As outras, marchetadas, são difíceis e  trazem a floresta em tudo o que são e fazem. Densas e emaranhadas, parecem perder o sentido quando uma certa fluidez toma de assalto uma seqüência de dias. Se esses se transformam em semanas, elas simplesmente desaparecem das prateleiras, não exibindo mais formas, chaves ou aberturas frontais. As folhas de madeira incrustadas desfazem-se de seus limites e se tornam uma coisa só; antes uma paisagem rica e detalhada limita-se agora a uma massa unificada, conhecida e despercebida por todos. Torna-se lisa, reta, sem sobressaltos ou reentrâncias, nenhuma surpresa mais por debaixo da tampa que, por esses tempos, mais parecia carvão, bruto e estéril, sem milagres.


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