Sabia que não estava mais aqui e ainda
assim o atendi porque era um sinal de reaproximação e expiação, talvez por
minha parte, mesmo a iniciativa tendo partido dele. A voz soou tão nítida que
quase pude pegá-la, sem pigarro algum ou interjeições, apresentando um volume
apesar de monocórdia. E eu surpresa porque fora desperta pelo tom quase
impassível de quem há pouco tempo não emitia som algum e se entregara,
lentamente, ao que chamavam de interrupção definitiva. Conformei-me com o
realismo fantástico da situação e sorri por dentro porque não quis assustá-lo ao
trazê-lo de volta àquilo a que estamos acostumados, ao nosso corriqueiro
diário, por alguns segundos. Ele andava se esquecendo das coisas, era verdade, e
isso se tornava uma grande vantagem naquela circunstância banal e ao mesmo
tempo extraordinária de se lembrar de mim em plena madrugada chuvosa e pedir
para que eu fosse ao corredor a fim de que o ouvisse melhor. Tudo bem não
estarmos mais tão próximos – talvez nunca tenhamos criado essa chance -, mas
não poderíamos deixar de valorizar aquele chamado como algo único e inesperado.
A não ser perto do fim, quando as paredes já não estavam mais tão sólidas e
resistentes, nascera um olhar menos amargo e mais generoso comigo mesma e que
acabou se estendendo sobre ele. De certa forma, já era tarde. Mas era o que se
podia fazer: pouco e muito, quase nada e tudo o que estivesse disponível dentro
da imaginação, nos limites da sanidade. Algum conforto naquilo que se delimitava
a cada dia mais próximo do que todos conheciam, mas não mencionavam.
Nossa despedida acontecera em um
dia de luzes brancas azuladas distorcendo a realidade, talvez para uma noção
menos dolorosa de tudo, dois dias antes do dia definitivo. Estivemos lado a
lado e por vezes dividimos a angústia alternando com a serenidade. Desloquei-me
agilmente porque a situação pedia uma certa dinâmica e busquei compaixão no que
fazia, quando pude fazer algo. Era difícil ser positiva na posição em que me
encontrava; eu podia afagar sua cabeça,
esfregar o braço esquerdo inchado e disforme, aquecer os pés inertes com o
cobertor, mas não podia levantar falsas esperanças. Então, em agradecimento, ao
dizer boa noite, ouvi um “Deus te abençoe” lúcido e límpido como o telefonema
que recebera esta noite e soube que finalmente ele estava partindo.